7.3.11

segredos.

kattunge:

(by ben evans)
Sabes quando te pedem para escrever sobre um tema sobre o qual raramente escreves, porque tens medo? Tens medo, receio. Preferes não falar, mas nem sabes porquê. É daquelas coisas, talvez não saibas. Tu não escreves. Devias escrever, mas não escreves. E por isso não sabes, mas continuas a ter segredos. Tens. Toda a gente tem. Eu tenho, tu também. Às vezes, queres guardar todos os teus segredos para ti. Só para ti. Mas depois, naquela tarde de primavera ou naquela noite de verão, aparece alguém que te faz confiar. Sentas-te na cadeira de madeira, sem olhar para o seu assento, e olhas para a frente. Ela já se sentou, e agora olha para ti atentamente. Espera que digas alguma coisa, e tu continuas à espera que seja ela a começar o diálogo. Tens medo. Tens muito medo, tens sempre. Às vezes mais, às vezes menos. Mexes no cabelo, e depois passas os dedos pela barba que deixaste por fazer nessa manhã. Começas a conversa, e perguntas se está tudo bem. A conversa continua, desenvolve-se pela tarde fora. Quando pára e olhas para o relógio, dás conta que a tarde toda já se passou. E tu nem notaste. Estavas bem. Sentias-te seguro, e ela também. Depois dizes que tens que ir embora, porque combinaste jantar com a tua mãe nessa noite. E logo aí, sem dares conta, revelaste-lhe um segredo teu. Os teus pais estão separados, e só de tempos a tempos é que vês a tua mãe. Não gostas disso, gostas de estar com os dois. Sempre com os dois, era o ideal, mas a vida está cheia de ideais não realizados. E contaste-lhe um segredo, e tantos outros, que saíram de ti de forma mais natural do que tu próprio pensaste. Sentes-te bem. Sentes-te à vontade com ela, gostas de sorrir para ela e gostas que ela te sorria. Gostas de falar com ela sobre tudo, e gostas de sentir que ela confia em ti o suficiente para te contar como está a vida dela. Vocês não se conhecem há muito tempo, conhecem-se há tanto suficiente. O tempo suficiente para conversarem, se sentirem bem, sorrirem sempre que estão juntos. O tempo suficiente não tem que ser muito, nem tem que ser pouco. Se estiver na conta certa, é o ideal. E mais uma vez os ideais, que não se realizam quando tu mais queres. Não passam disso mesmo. São ideais, ideias que constróis dentro da tua cabeça e dentro do teu coração, com a intenção de te regular a vida inteira. Os ideais são como os segredos. Estiveram contigo durante toda a tarde, estão contigo durante uma vida inteira. Os ideais estão sempre na tua cabeça, e os segredos não te largam o coração. Tens segredos que te fazem sorrir, e outros que te fazem doer. E aí, dói-te o coração, dói-te a alma e o corpo. Dói-te tudo. Os segredos podem fazer doer, mas toda a gente os tem. Por isso, não te admires se vires um segredo colado na testa de alguém. Não te admires se passares por alguém na rua e, quando essa pessoa te sorrir, um segredo salte disparado para cima de ti. Não te admires se encontrares um segredo escondido por debaixo da chávena do café, entre a chávena e o pires. Não te admires, porque a cada vez que sorris libertas um segredo e a cada vez que choras um segredo esconde-se dentro de ti.

2 comentários:

  1. eu já li, eu já li. e adorei, como não podia deixar de ser, claro.

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  2. oh meu amor, está tão perfeito. tão, mas tão perfeito.

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