14.8.10

54.




se me perguntares porque é que te estou a escrever, logo para ti, eu não te vou conseguir responder. ou pelo menos, não te vou dar uma resposta suficientemente aceitável. uma resposta que consigas aceitar, ou que faça sentido dentro de ti. se calhar, foi porque hoje pensei em ti, de manhã, quando acordei. e porque é que pensei em ti? não sei, não faço a miníma ideia. talvez tenha sido o meu sub-consciente a falar mais alto, a querer que eu trouxesse à tona as velhas memórias de tudo o que partilhámos. perguntei-me se estarias bem, se agora aceitas todas as escolhas, boas ou más, que fizeste. perguntei-me se estarias feliz com a vida que levas. e o meu pensamento deu-me um sim como resposta. um sim que, mesmo podendo não ser totalmente verdade, me acalmou. deixou o meu coração bem mais calminho, por saber que estás bem. porque isso independemente de tudo o resto é, e será, o mais importante. a vida tomou um rumo que, mesmo não sendo essa a nossa vontade, nos separou. hoje, raramente, nos vemos. não combinamos estar juntos, neste ou naquele sítio, a esta ou àquela hora. quando estamos juntos, é por mero acaso. porque eu fui à cidade e te encontrei, ou porque a minha mãe foi à casa do avô, e tu estavas lá. mas eu nem sequer sabia. nem sequer sabia que tinhas vindo, já viste bem? não tiveste culpa, e eu também não. mas nós separámo-nos, deixámos de ser quem erámos juntos por razões que nem sequer nos incluiam a nós. nós nem sequer tivemos culpa daquilo que aconteceu. erámos crianças, e deixámos que os problemas dos adultos interferissem também na nossa amizade. sim, nós erámos amigos. fomos amigos enquanto a bomba não se fez explodir. quando eu era pequena, passávamos tardes e tardes juntos. eras uma espécie de herói para mim, se esse for o termo correcto. na verdade, acho que eras muito mais que isso. eu gostava muito de ti. gostava de estar contigo, e gostava da tua maneira de ser. ficavas comigo, e tinhas paciência para brincar ao que eu queria, mesmo que eu fizesse uma birra atrás de outra. ias buscar leite à mercearia ao lado, e eu queria ir contigo, mas a avó nunca me deixava. tentava arranjar qualquer coisa para me entreter, e esperava ansiosamente que chegasses. quando isso acontecia, eu sorria muito, porque já estavas ali outra vez comigo. brincávamos aos advogados na oficina do avô, e andávamos de balancé no parque infantil. ias com o avô buscar-me à pré-primária, e fazias muitas macacadas pelo vidro, assim que chegavas. eu via-te, e ficava logo desasossegada. tinhas mais quatro anos do que eu, mas brincavas comigo como se fossemos da mesma idade. tu eras o primo bão, e eu era a prima nê. agora, não sei quantos anos depois, eu sou a inês e tu és o j. e eu nem sequer sei se ainda te lembras de mim.

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